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balanço FMM 2010

FMM 2010

Ponto Prévio: O Festival de Músicas do Mundo de Sines continua a ser um evento de distinção no panorama dos eventos musicais em Portugal. A escolha das palavras não é isenta e esta ideia de continuidade serve para precaver para o que adiante se dirá sobre as duas últimas noites do Festival.

À guisa de resumo: O evento é aquilo que a expectativa e os acontecimentos nos provam poder ser. Um veterano do FMM espera um público conhecedor, a surpresa de artistas desconhecidos, muita qualidade e algumas desilusões. A cartilha diz também que quem vai de novo espera menos e aceita mais. O FMM tem vindo paulatinamente a ser mais um festival em que os indefectíveis se diluem na grande massa dos novos, com as virtualidades e os defeitos que isto provoca. Parece até que o Festival está dividido em dois: as noites de sexta-feira e sábado por um lado e o resto do festival por outro.

FMM 2010

Quanto à música importa começar pelo início e o primeiro dia do festival trouxe-nos um arranque bastante elogiado com os irmãos Salomé e os cantadores do Redondo e também o afrobeat vibrante dos Cacique’97 onde se destacou uma sempre arriscada versão de Lady do lendário Fela Kuti. O Palco do Castelo, o palco de todas as ilusões, inaugurou-se da melhor forma com o riquíssimo concerto de homenagem a Nat King Cole, em que fusão do jazz, música latina e da música erudita se fizeram da melhor forma. O brilho de David Murray ganhou muito com a presença do carismático Daniel Melingo. No entanto, o concerto do grupo norte-americano Rubias del Norte não deu seguimento ao que David Murray tinha iniciado oferecendo um espectáculo monótono. A Noite fechou em melhor estilo com o concerto de Céu que apresentou uma fusão entre a MPB, a música de matriz jamaicana e sons mais electrónicos a coberto de uma performance voluptuosa.

O segundo dia do festival veio confirmar que os concertos vespertinos no Castelo foram uma aposta ganha. O espectáculo dos 34 puñaladas trouxe urbanidade e fez do castelo um palco dos subúrbios de Buenos Aires. Na noite há a destacar o excelente concerto do projecto N’diale com grandes momentos de solo do saxofonista do Jacky Molard Quartet, e ainda a excelência da fusão de estilos de duas tradições musicais tão distintas entre si. Por outro lado, os concertos de Yasmin Levy e The Mekons não convenceram totalmente, o primeiro pela inconsistência na escolha entre um estilo mais clássico e uma abordagem new age à música tradicional sefardita e os segundos por nunca terem conseguido cativar o público do Castelo.

A noite de sexta-feira trouxe do melhor e do pior que o festival teve. Os grandes concertos de Tinariwen, Kimi Djabaté e Barbez não escondem a escolha horrível que foi a presença de Sa Ding Ding no FMM e um problema que se agrava ano após ano, o excesso de público no Castelo nas noites do fim-de-semana. A tarde foi claramente do guineense que proporcionou momentos de exuberância musical e empatia com o público impares. Os The Rodeo conseguiram não desiludir uma Avenida da Praia repleta. Porém, a qualidade viria a ser recolocada nos mais altos patamares com a inesperada e abundante performance dos nova-iorquinos Barbez. O intermezzo de locus horrendus proporcionado por Sa Ding Ding seria facilmente esquecido com o mais elogiado dos concertos desta edição do FMM. OS Tinariwen provaram que os guerrilheiros não se amedrontam e não deixaram que as enormes expectativas – até de quem mal os conhecia – fossem escolhos no caminho para o Olimpo do FMM. Um grande concerto. A noite encerrou em ritmo de dança com os brasileiros radicados em Nova Iorque Forro in the Dark a darem o compasso na Avenida da Praia.

O último dia chegou em Galego – uma língua que já tem o seu próprio trajecto no FMM – com o concerto de Guadi Galego. A noite de sábado foi uma das mais consistentes de sempre no Palco do Castelo. O deslumbramento do cajón e das guitarras flamencas afagaram a voz gloriosa de Lole Montoya; um espectáculo escutado com uma atenção recatada mas participada quando o Castelo de Sines ainda era um local transitável. De seguida viria a virilidade da música africana pelos consagrados Cheik Tidiane Seck e Mamani Keita onde as melodias intermináveis e os solos estridentes se deixaram pontuar pela simpatia inultrapassável destes grandes artistas. O concerto de encerramento chegou com o fogo-de-artifício (desta vez mais modesto e fumoso) e os congoloseses Staff Benda Bilili provaram o que se esperava deles: uma fúria incandescente em direcção ao terreno da loucura dançante onde a mestria musical não é ferramenta indispensável. Um concerto em que muitas vezes a energia suplantou o virtuosismo mas em que a qualidade não saiu beliscada. Lamentável apenas a exiguidade de espaço dançante permitido a cada espectador, centímetros onde eram necessários metros. A noite do Castelo terminou e o pano começava a cair numa edição diferente mas ainda assim valorosa do melhor Festival de Música em Portugal.

Aos pontos

O Belo:
-
A continuidade do festival apesar das dificuldades financeiras.
- Os grandes concertos de N’diale, Cheik Tidiane Seck, Barbez, Kimi Djabaté, Lole Montoya e Tinariwen.
- O ambiente dos primeiros dias do Festival.
- A possibilidade acampar gratuitamente.
- A capacidade de reduzir custos e manter muita qualidade.

O Horrível:
- O excesso de público nas últimas duas noites do Festival.
- A aparente vontade de mediatização do Festival (expressa no duvidoso spot televisivo).
- O concerto de Sa Ding Ding.
- A inexistência de um parque de campismo mais confortável.
- A inexistência de CD FMM 2010.

Texto por Tiago Avó

www.fmm.com.pt
foto oficial FMM 2010

03 Agosto 10 | na categoria festivais nacionais