crónicas involuntárias

Crónica 20 – Sem título            

Tenho por hábito aproveitar-me da escrita para maldizer as coisas que me irritam. A escrita e a música. É isso que me mantém são e geralmente bem-disposto, o facto de poder descarregar aleatoriamente ou não sobre um ou vários assuntos, mandar palavras cá para fora que representem aquilo que penso ou sinto sem me preocupar com o que alguém pensa sobre isso. Hoje decidi que ia ser diferente, e que melhor maneira de terminar esta série de crónicas que abordar o assunto mais falado do mundo? Sim, vai-se falar de amor. Oh yeah.

O amor é uma espécie de igreja católica, tem muitos seguidores mas são poucos os que rezam e vão à missa todos os domingos. Todos os dias vemos aquilo a que se chama amor, uma espécie de Natal que já não é bem sobre a família, em que o mais importante são os presentes que se dão e recebem, em que se têm de sacrificar perus e árvores para alcançar uma espécie de imagem do que é a felicidade. É aquele tipo de amor que espera resolver problemas com ramos de flores e viagens, em que se pendura um quadro de um beijo romântico na parede que nunca se deu, em que se apregoam palavras de carinho como quem pede uma imperial e um prato de tremoços. Amor para aqui, amor para ali, como uma canção interminável em que se chega ao fim e já se perdeu todo o sentido do que está a ser dito. Amor porque estás aqui e eu também e já que não há mais ninguém, vamos a isso. Nunca a expressão “fazer amor” teve mais sentido. Anda um mundo inteiro a fabricar uma imagem de amor e felicidade baseada em clichés que vão passando de geração em geração, um jantar, umas velas, um beijo, namoro, casamento, filhos, aborrecimento. É isto que nos chega todos os dias de todas as direcções, e a presença desta sombra maldita do que tem de ser o amor transforma-nos em pequenos bonecos de loiça prontos a serem mudados de mão em mão, até se encontrar um lar onde “se está bem”. Se perguntarmos à maioria das pessoas o que entendem por felicidade, iríamos ouvir uma miríade interminável de frases feitas, e o amor viria à baila em 90% delas.

Diria que o amor é outra coisa qualquer. Talvez até mesmo o contrário da racionalidade a que tanto damos crédito. Porque não há explicação para quando se vê alguém à distância e se sente o estômago às voltas com uma enorme vontade de vomitar de tanto nervoso miudinho, ou quando se quer dizer algo e tudo o que sai está relacionado com a disposição dos móveis ou o estado do tempo, ou quando se rejeitam pessoas pelas quais nos sentíamos atraídos até há bem pouco tempo, ou mesmo quando se tentam enviar mensagens telepáticas para a pessoa em questão, mesmo sabendo que a telepatia não existe. Não há grande forma de explicar o que é o amor porque ele se manifesta de formas diferentes em cada pessoa, e considerando que se rege pelo princípio da irracionalidade, podem continuar-se a escrever milhares de livros, de canções, de filmes, revistas, que nunca se chegará a qualquer conclusão. O amor ideal talvez seja solteiro, aquele que não precisa de afirmações sociais nem outros apetrechos que mostrem publicamente o afecto, que se sustenta exclusivamente no facto de duas pessoas se conhecerem e se apaixonarem e viverem apaixonadas uma pela outra, sem ter de chamar a isso casamento ou namoro ou outra coisa qualquer. Talvez seja mesmo ter um bilhete de identidade com estado civil “apaixonado”. Em última análise, cada um sente o que sente, e o que interessa acima de tudo é sentirmo-nos felizes, e se bastar um olhar para que isso aconteça ao invés de acumular flores murchas e outros artefactos da comercialização dos afectos, tanto melhor, que essa fonte é inesgotável e não precisa da água mudada.

Daniel Catarino | www.myspace.com/danielcatarino

[Daniel, foi uma enorme honra ter-te tido aqui durante todo este tempo. este blog ficou hoje mais pobre. sem merdas.
um grande abraço para ti rapaz. boa sorte é o que eu, honestamente, mais te desejo.]

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04 Dezembro 10 | na categoria crónicas involuntárias

crónicas involuntárias

Sexta-feira

Sexta-feira, 24 de Fevereiro. José Gonçalves acordava sem grande pressa. Eram sete e meia, o dia dava indícios de ter nascido e a manhã erguia-se sem pressa. Tinha o hábito de ligar o rádio para ouvir as notícias e o trânsito. Alguém tinha morrido, um teclista famoso de uma banda da qual já toda a gente se tinha esquecido. A avenida estava obstruída, o primeiro-ministro anunciou nova baixa nos impostos, uma terreola qualquer tinha sido promovida a concelho. Barbeava-se e vestia-se após o duche rápido. Passava a primeira música desde que tinha ligado a telefonia. Um qualquer êxito pop rápido, daqueles que serão esquecidos na próxima semana. Três minutos e meio depois, mais conversa. Gostava de ouvir pessoas a falar logo pela manhã, ajudava-o a despertar. No carro acabava por ligar o leitor de CD.

Quando chegou ao armazém, estava atrasado. Era habitual, ninguém estranhava. Movia-se a um ritmo lento, sem grande preocupação, sempre fora assim. No entanto não se ouviam senão boas coisas dele. Que era um trabalhador certo, que cumpria e não se desleixava. Ao final do dia, as suas caixas acabavam por ficar todas arrumadas, tal como as dos seus colegas apressados. Construiu o seu ritmo de trabalho de forma a não ter de se preocupar com as suas tarefas mais do que o absolutamente necessário.

- Zé, vai arrumar as tuas coisas, podes tirar a tarde livre.
Era o seu chefe. Homem rijo mas consciente, sabedor das manhas da vida, conhecedor da mente humana o suficiente para saber manter os seus trabalhadores motivados. Há muito que tinha aprendido que a pressão não traz habitualmente bons resultados, e como tal limitava-se a atribuir as tarefas do dia, ocasionalmente dava tardes e manhãs livres àqueles que nunca lhe falhavam. “A vida já é uma porcaria sem um gajo se ter de chatear com o trabalho. Só quero que façam aquilo que é suposto, a mais não são obrigados.” Esta era a sua frase de boas vindas para os novos empregados. Quase todos os meses os havia, principalmente estudantes à procura de part-time para sustentarem os seus estudos, que é como quem diz, os seus vícios.

Foi para casa por volta da hora de almoço, um bocado depois, para compensar a bondade do patrão. Meteu-se no carro e num instante estava sentado a ver televisão. Deixou-se dormir com os programas da tarde.

 

Daniel Catarino | www.myspace.com/danielcatarino

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02 Outubro 10 | na categoria crónicas involuntárias

crónicas involuntárias

A PRISÃO DO TRABALHO

Estão à minha frente cerca de duzentas pessoas, divididas entre mil nacionalidades e motivos para estarem aqui. Alguns com histórias de vida incríveis, outros vazios como a Ribeira da Raia nos anos de seca.

Poucos serão os que realmente apreciam estar aqui, mas há que trabalhar para ganhar a vida. É um escritório como qualquer outro, o trabalho também, e todos se distraem ocasionalmente com os vídeos engraçados ou as imagens apelativas que vão circulando entre os grupos de amigos.

Lembro-me de há muitos anos ver representações deste cliché da vida do trabalhador moderno, e pensava para mim como é que alguém conseguia aguentar uma viver assim, a ver o seu tempo roubado permanentemente por paredes medidas ao centímetro, numa secretária sem espaço para qualquer marca pessoal ou indício de criatividade.

E no entanto aqui estou, observando como eu próprio me tento adaptar a este universo, simulando interesses em coisas que me são indiferentes, dando os ouvidos mas não a audição a conversas que se afunilam de ouvido em ouvido até chegarem a mim. Abano a cabeça, as palavras passam-me pela bigorna como quaisquer outras, mas o relógio é a única coisa que me interessa.

A nova classe média/baixa trabalhadora está presa a um temporizador que tenta acelerar ou desacelerar consoante os seus interesses e frustrações, tal como os seus primos mais velhos, tal como os seus pais, tal como os seus avós. Mas o relógio tem outro passo, e por mais que se acelerem as batidas por minuto, os sessenta segundos são sempre os mesmos. Está também presa aos escritórios, às secretárias, às hierarquias infindáveis em que não se consegue fazer a diferença porque não se sabe com quem falar, como um jogo de computador em que se tem de lutar contra trinta chefes para chegar ao topo, e no fim aparece, sarcasticamente, um ecrã a dizer “continua”.

Estamos também presos, em grande maioria, ao ciclo diurno, regulados pelo sol, condenados a desperdiçar cada um dos seus raios dentro de um edifício. Quem trabalha à noite é, muitas vezes, considerado um “inadequado”, um boémio ou simplesmente alguém que tem um emprego fácil, que não merece sequer a denominação de “trabalhador”. Na verdade, trabalhar à noite permite apreciar alguns raios de luz diurnos, desfrutar do sol. Mas a prisão está lá, e uma cela com temporizador aguarda-nos diariamente, dando-nos dois dias semanais para visitas conjugais e afins. Quero trabalhar, mas não quero viver para o trabalho. Como dizia José Mário Branco, “quero ser feliz, porra!”.

 

Daniel Catarino | www.myspace.com/danielcatarino

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04 Setembro 10 | na categoria crónicas involuntárias

crónicas involuntárias #17

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Junho 5, 2010 crónicas involuntárias
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