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Todas as edições do Festival de Músicas do Mundo são diferentes e irrepetíveis. São diferentes porque a organização parece desejar que cada nova edição tenha uma singularidade em relação à anterior e irrepetíveis porque a surpresa e a diversidade de artistas tendem a proporcionar um elevado grau de imprevisibilidade. Nesta edição de 2011 a grande novidade do festival se desenvolver durante dois fins-de-semana proporcionou experiências distintas daquilo que é norma do festival na cidade de Sines – tendo em conta os anos em que o FMM também teve um palco em Porto Covo.
O primeiro fim-de-semana de concertos proporcionou um retorno às primeiras edições do FMM. O castelo "cresceu" em espaço e o tempo concedido a cada um dos artistas pôde ser mais ao sabor dos desejos do público do que dos desígnios de um calendário apertado. Este primeiro fim-de-semana foi uma excelente aposta – como já o eram os concertos em Porto Covo – até pela excelente capacidade demonstrada pela equipa de programação de montar um cartaz muito equilibrado e de enorme qualidade.
Sexta-feira, 22 de Julho
A música começou a fazer-se ouvir pela voz e viola de António Zambujo na tarde de sexta-feira mas foi o primeiro concerto da noite no Castelo de Sines que criou a extraordinária sensação de retorno ao princípio do festival; os irmãos Joubran e os seus alaúdes (sustentados por um excelente percussionista) proporcionaram um arranque de prodígio e desde logo um dos melhores espectáculos da edição de 2011. A noite continuou com uma prestação competente do consagrado Cheikh Lô e com a energia intempestiva dos Secret Chiefs 3 que conseguiram contagiar o público do Castelo.
Sábado, 23 de Julho
O segundo dia arrancou com o belíssimo espectáculo proporcionado por António Chainho em que a parte instrumental mostrou um dos mais conseguidos exercícios de dialogo/fusão da música portuguesa contemporânea. Este sábado trouxe a primeira surpresa desiludida já que o aguardado concerto de Mamer (depois do cancelamento em 2009 por problemas com os vistos) não foi aquilo que se esperava, o concerto não foi do cantatutor chinês mas sim de uma banda de que Mamer faz parte, situação mal dissimulada com o recurso a alguns temas do album Eagle. Já o concerto Congotronics vs. Rockers foi um notável momento de fusão e conflito entre tradições musicais e processos formais dispares, um verdadeiro sucesso assistido por 18 músicos provenientes do Congo, da Argentina, dos Estados Unidos e Suécia.
Domingo, 24 de Julho
Luísa Maita encontrou um público cansado, contagiado pelo "espírito domingueiro" e enregelado pelo vento frio que vinha do mar, apesar das contrariedades conseguiu arrancar algum entusiasmo da plateia. O flamenco castiço do projecto "De Tangos y Jaleos" não se adaptou ao formato de palco, apesar do inesperado momento de dança proporcionado por um bailador ancião. O entusiasmo maior ficou guardado para o concerto do veterano ganês, Ebo Taylor, que com o seu highlife elevou a temperatura e o ambiente outonal da plateia.
Quarta-Feira, 27 de Julho
O primeiro dia do segundo fim-de-semana do FMM foi talvez aquele em que o equilíbrio em termos de qualidade dos concertos foi mais constante. Mercedes Peón mostrou como uma mulher sozinha num palco pode ser tão eficiente como orquestra de câmara e tão intempestiva como uma big band afrobeat; a proficiência da narrativa popular esteve sempre presente numa ambiência feminista e intimista. O feminismo continuou a ser nota dominante no início de noite com a actuação entusiasmante de Manou Gallo e a sua Women Band. Antes do estrondoso espectáculo de Blitz the Ambassador, actuaram os suíços Mama Rosin que deixaram uma alegre memória de dança e boa disposição. No entanto, foi o mesmo o rapper ganês o grande fenómeno da noite; a banda que o acompanhava destilou uma energia electrizante ao longo de todo o concerto enquanto que Blitz mostrou a todos como se organiza um espectáculo que não foi de hip hop mas de sublimação do universo musical urbano africano e afro-americano. Fica também uma palavra para os Mikado Lab que tiveram a ingrata tarefa de oferecer jazz na avenida da praia às 3h da madrugada.
Quinta-Feira, 28 de Julho
Na quinta-feira o duo japonês Shunsuke Kimura e Etsuro Ono pareceu impressionar no Castelo no final da tarde, cabendo aos brasileiros Graveola e o Lixo Polifônico dar a batida certa para o pôr-do-sol. O início da noite no castelo foi de empatia entre os gregos Apsilies e o público do castelo, uma empatia que se fez mais notar graças à situação económica do que musical apesar da competência evidente destes simpáticos Apsilies. O esplendor da Índia voltou a estar presente com toda a sua força pela mão de Vishwa Mohan Bhatt que com o seu ar professoral e virtuosismo ilimitado conduziu o Divana Ensemble nesta vigorosa e "opípara" viagem entre o blues e os sons do Rajastão. Depois disto veio o inexplicável e brincando com as palavras sérias de um famoso com barbas "A história repete-se duas vezes, a primeira como tragédia e a segunda como farsa": Nomfusi foi a Sa Ding Ding de 2011.
Sexta-feira, 29 de Julho
Este dia teve pouca história para além de um começo a bom ritmo com os Lisbon Underground Music Ensemble (aka L.U.M.E). Apesar da competência inegável dos músicos do projecto Marchand vs Burguer "Before Bach", da energia e da experiência dos alemães Dissidenten e do exotismo extremo das Ayarkhaan a noite deixou poucas memórias.
Sábado, 30 de Julho
Nathalie Nathiembé proporcionou aquilo a que podemos chamar um regresso à normalidade do FMM, ou seja um regresso ao entusiasmo e à partilha entre músicos e o público do Castelo. A cantora nascida na Ilha da Reunião, apesar de ter sido despromovida da noite para a tarde, deu um magnífico exemplo. Estas alterações nos horário acabaram por beneficiar o alinhamento e o andamento desta última noite de FMM, sendo que Mário Lúcio, o único que não foi realinhado deu um entusiasmante concerto, dançante e dialogante na boa tradição cabo-verdiana. Por mais que a organização entenda que a música jamaicana é impreterível no FMM, os últimos concertos do Castelo provenientes da terra do ska e do rocksteady não estiveram ao nível dos míticos Skatalites que em 2003 estiveram no FMM. O concerto de Sly and Robbie foi melhor do que o de Lee Perry em 2009 mas ainda assim ficou muito aquém de ser um espectáculo digno do último dia do festival sineense. No entanto os realinhamentos pouparam os espectadores e permitiram que o último concerto entre muros fosse de festa, euforia, competência em vez de ostentação de galões. Aziz Sahmaoui e a sua University of Gnawa entraram para a história dos melhores momentos de encerramento do FMM. Maktoube e AnaHayou são canções que ninguém vai esquecer. Kumpania Algazarra foi festa numa lata de sardinhas tal era a enchente da Avenida da Praia.
Notas Finais
– Os preços praticados pela concessão da SuperBock reflectem em demasia o monopólio que detêm em Sines, pelo menos durante o FMM.
– A Avenida da Praia ficou prejudicada com os reajustamentos e com a alteração da orientação do palco. O espaço ficou demasiado pequeno e facilmente se tornou claustrofóbico. A segurança, lembrando acidentes recentes em festivais no Norte da Europa, também parece não ter ficado totalmente salvaguardada com esta disposição da Avenida da Praia.
– O Festival de Músicas do Mundo de Sines ficou muito a ganhar com o regresso ao modelo de dois fins-de-semana, agora com a totalidade do evento a decorrer na sede do município. No entanto, ainda se sentiu a falta do ambiente dos concertos no centro de Artes de segunda e terça-feira.
– O nível dos espectáculos foi globalmente bom. Sendo que os concertos de Le Trio Joubran, Congotronics VS Rockers, Blitz the Embassador, Vishwa Mohan Bhatt, Nathalie Natiembé e Aziz Sahmaoui e a sua University of Gnawa entraram para a história mais feliz do FMM.
– O esforço da CM Sines em manter um parque de campismo limpo e utilizável para quem vai ao FMM com um orçamento mais baixo: – fica a sugestão de condicionar a entrada aos portadores de bilhete para o festival.
– A sempre complicada gestão das casas de banho parece ter melhorado este ano.
Grande FMM e até para o ano.
por Tiago Avó
fotografia FMM
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Com o final de Julho chega também um muito aguardado momento para um cada vez maior número de pessoas. O caminho consistente e consolidado que o Festival de Músicas do Mundo de Sines tem trilhado fez com que as expectativas sejam a cada ano que passa mais e mais exigentes. A organização tem conseguido, ano após ano, recompor a história do festival através da readaptação constante do modelo (número de dias, locais dos concertos, palcos, etc.), fazer com que o Festival não se torne numa entidade atávica agarrada aos méritos do passado. Exemplo disso foi o retrocesso de 2010 em número de dias e a, porventura mais ambiciosa de sempre, edição de 2011.
Esta edição que em breve começará (re)consagra o castelo como o palco e o coração do Festival por excelência com um maior número de concertos e um esforço considerável nesse sentido. As expectativas dos mais melómanos de entre aqueles que não abdicam de Sines é esperar que as condições de sobrelotação que em alguns momentos se fizeram sentir no Castelo não se voltem a verificar. Entrando no que mais directamente interessa, ou seja a música, o festival volta dividir-se por dois fins-de-semana que parecem equilibrar-se em termos musicais, sendo que o segundo fim-de-semana encerra um maior potencial de festa com o arrastar da folia pelas madrugadas na avenida da praia.
O primeiro dia do festival arranca com o fado heterodoxo de António Zambujo, num dia em que todos os intervenientes merecem destaque por uma ou por outra razão. No início da noite apresentar-se-ão os irmãos que compõem o “Le Trio Joubran”, um trio de alaúdes que promete virtuosismo, de seguida vem um consagrado da música centro/oeste africana, Cheikh Lô; para finalizar em grande este primeiro dia o cardápio encerra com o experimentalismo voraz dos Secret Chiefs 3, que prometem muito não estivesse presente, o ex-Mr. Bungle e ex-Faith no More, Trey Spruence.
O segundo dia arranca com o arrojado projecto Lisgoa de António Chainho em que a música sabedora da guitarra portuguesa de Chainho dialoga com a música indiana. A continuidade estará a cargo do inesperado Mamer, um trovador cazaque-chinês, que divide o estatuto de destaque da noite de 23 de Julho com o projecto Congotronics vs. Rockers que apresentam a fusão impossível da música tribal congolesa com o universo musical da folk urbana e do indie.
O primeiro fim-de-semana encerra finalizando a tarde com a música dos Aduf – projecto coordenado por José Peixoto. E durante a noite o flamenco regressa ao palco do Castelo, depois do assombroso espectáculo de Lole Montoya em 2010, com o espectáculo “De Tangos y Jaleos”. No entanto é o final de noite que muito promete. O último concerto do primeiro fim-de-semana será da responsabilidade de um homem da geração de Fela Kuti, daquela geração que mudou para sempre a música africana; Ebo Taylor vai trazer highlife e afrobeat ao Castelo.
Depois de dois dias de banhos e descanso o FMM regressa em força. Caberá à prolífica e convicta multi-instrumentista galega Mercedes Peón reabrir as hostilidades do Castelo. Neste segundo fim-de-semana abre-se a nova frente de espectáculos que é a Avenida da Praia (Rakia às 20h e os Mikado Lab de madrugada). Conquanto que no Castelo, Manou Gallo (ex- Zap Mamma) promete ser um bom arranque para a orquestra do rapper Blitz the Ambassador.
É na Ásia que entra o dia 28 de Julho, com os japoneses Shunsuke Kimura e Etsuro Ono, seguidos pelos mineiros Graveola e o Lixo Polifónico. Enquanto na noite se destaca o virtuosismo de Vishwa Mohan Batt que, se repetir o esplendor que mostrou em 2008 no Festival Évora Clássica de Évora, ficará seguramente na memória futura do Festival. Para encerrar a noite no Castelo chega da África do Sul uma cantora que tem tanto de Miriam Makeba como de estrela R&B, de seu nome Nomfusi. A descompressão estará a cargo do projecto Tuba Project, jazz com tuba e com o convidado Bob Stewart.
É no L.U.M.E. que se encontra o jazz do FMM, pois esta big band vai encher de jazz o palco do Castelo na tarde de Sexta-Feira. Dia em que todas as expectativas parecem apontar para os veteranos Dissidenten e as suas “Tanger Sessions” que prenunciam um encerrar de noite ao melhor estilo dançante do FMM. Antes dos berlinenses Dissidenten, actuará o duo Erik Marchand e Rodolphe Burger que sob o pretexto de um regresso à música pré-bach anunciam virtuosismo e experimentalismo. O prémio de exotismo da noite está seguramente nas mãos das russas Ayarkhaan.
A maratona começa a ver a meta pela mão de um apetecível concerto de Aziz Sahmaoui e University of Gnawa, que vêm de Marrocos e do Senegal. A continuidade será dada pelos portugueses CaBaCe no ambiente crepuscular da Avenida da Praia. A noite traz o concerto do mentor dos cabo-verdianos Simentera, um homem que para além de ser um músico de uma categoria singular é também o ministro da cultura do seu País. Sobrevoamos África e chegamos à Ilha de Reunião que é de onde é proveniente Nathalie Natiembé, uma cantora que parece prometer um concerto intenso. Da Jamaica vêm os mais que consagrados Sly and Robbie, será deles a honra de encerrar e acompanhar o fogo-de-artifício do Castelo. Como o fim nunca é quando a música parece acabar, a madrugada é de algazarra e é na sua kumpania que cai o pano sobre o FMM de 2011.
Vamos estar lá para ver.
www.fmm.com.pt
www.facebook.com/fmmsines
texto por Tiago Avó, nosso fiel correspondente no FMM.
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