Em frente ao Parlamento

- Não devia ter trazido estes sapatos, estão a comer-me o calcanhar todo, vou ter de chegar a casa e pôr os pés de molho. Ainda por cima são super reacionárias estas sabrinas, gaja que é gaja, não se veste “à la Audrey Hepburn” em pleno século XXI, está tão completamente out . Mas tenho de usá-las nestas ocasiões do povo, não ia arriscar pisarem-me com os meus laboutin novinhos em folha. Se bem que o salto alto dava jeito para partir a cabeça àquele bófia que não para de olhar para nós.

- Ai que filho da puta! O gajo é giro que se farta, parece um ícone gay dos anos 90. Dá-me cá uma ponta.

- Não faz o meu género. Dás-me lume? Eu que tinha deixado de fumar, tenho andado com um “camadão” de nervos que até me rebentou a ciática. É que ainda por cima isto não é uma greve, é um protesto, uma “manif”, vá. Para “grevar” era preciso que tivéssemos trabalho. A única coisa a que estou a faltar hoje é ao programa da tarde da senhora Fátima.

- Amén.

 

Cláudia Lucas Chéu
www.nuncaconheciestaraposaviva.blogspot.com
foto: A_SHOT

{ 0 comments }

26 Novembro 11 | na categoria diálogos de bolso

Numa mercearia

- Eu cá prefiro um veterinário, confio mais neles do que nos médicos das pessoas, estou a falar a sério. O meu problema na coluna foi um veterinário que mo tratou, andei a gastar balúrdios em consultórios particulares e depois foi o veterinário da Câmara que me conseguiu salvar os costados. Vá se lá confiar em diplomas e chapinhas douradas à porta dos gabinetes dos doutores. É tudo folclore para inglês ver.

- Acredito, acredito. E a quanto é que está o quilo das bananas?

- Está aí escrito, ó dona. Essa é da mais cara, porque é da Madeira, mas vale a pena, porque é produto nacional e a qualidade é superior. Olhe são como a nossa mulher portuguesa, pequenina e saborosa, só não nos podemos fiar na proveniência. Estou-lhe a dizer, então os nossos sogros – palavra já de si feiota – são como uma ilha, por mais que os estimemos, não passam de objectos completamente isolados. Vá por mim.

 

Cláudia Lucas Chéu
www.nuncaconheciestaraposaviva.blogspot.com
foto: A_SHOT

{ 0 comments }

19 Novembro 11 | na categoria diálogos de bolso

Numa carruagem.

- Não vês que está toda a gente a olhar para ti. Faz o favor de não me envergonhares! É que até parece que alguém te fez algum mal. Uma menina da tua idade a fazer birra destas, não se admite, vá limpa lá essas lágrimas, não tarda estamos a chegar. É que para a próxima ficas em casa da tua avó anafada, sabes perfeitamente que não tenho paciência nenhuma para mimalhices inexplicáveis.

- Eu queria aquilo, mamã.

- E então, lá porque não to dei abriste as torneiras todas, foi? Que eu saiba, não te dói nada e vais passear comigo, devias estar satisfeita. Que aborrecimento, menina.

- Estou só um bocadinho maldisposta.

- Então dispõe-te como deve ser. Eu é que não posso mandar parar o comboio, só porque a menina está a fazer fita. Estás enjoada, comes uma isca. Vá endireita-te no banco. A mamã ama-te.

 

Cláudia Lucas Chéu
www.nuncaconheciestaraposaviva.blogspot.com
foto: A_SHOT

{ 0 comments }

12 Novembro 11 | na categoria diálogos de bolso

diálogos de bolso #07

Novembro 5, 2011 diálogos de bolso

Num ascensor. – Oiça, cada vez mais há famílias a viver com o ordenado mínimo ou menos, eu sinceramente não

●●●

diálogos de bolso #06

Outubro 29, 2011 diálogos de bolso

À beira de uma fotografia. – Importa-se de ver como é que está o meu cabelo? É que lá fora

●●●

diálogos de bolso #05

Outubro 22, 2011 diálogos de bolso

Numa cama – Não sei como é que ainda continuas a fumar aqui, é tão eighties, credo. Só mesmo os

●●●

diálogos de bolso #04

Outubro 15, 2011 diálogos de bolso

Numa esquina. – Estou-te a dizer, veio lançada na minha direção, se não lhe tivesse agarrado os punhos, tinha levado

●●●
  • Page 1 of 2
  • 1
  • 2