
Hoje o Bacalhau reina nas vossas casas, mas não na minha.
- Para o amanhã
Não acordas na cama que em tempos massajava as tuas costas. O teu nariz dilata cada vez que sais porta fora da Farabi Sokak nº13. Não adianta correr porque já vais perder o autocarro para o outro lado de Ankara, para o campus mais frio do planeta mas onde alcanças uma das mais belas vistas para toda a cidade. É quente de olhar, mas fria para a levar a passear. Falas (com duas muletas) o turco que aqui as pessoas precisam de ouvir para te sentirem e mesmo assim escalas algumas montanhas para descobrires onde se situam as lojas de instrumentos que por aqui pairam. Ao contrário do que as pessoas pensam, o povo turco tem uma necessidade cavernosa e quase obsessiva de organizar em detalhe, desde a montra dos vegetais numa tenda na rua, até a um quarteirão apenas com lojas de instrumentos.
Passeias o teu corpo português pela gigante avenida Atatürk, (onde os sinais luminosos são mito e o ensemble de buzinas, de todo e qualquer transporte, acariciam-te os ouvidos com um peculiar bom-dia) até que paras numa esplanada na mais que atribulada Kizilay, para relaxar ao sabor do chá turco (Çay). Dás o primeiro gole e instantaneamente o arrepio dos pêlos por todo o teu corpo é criado pelo místico som do Bağlama, do Santur e da sempre fiel companheira Darbuka. A lista dos músicos é infindável, tal como dos seus instrumentos, para não falar das vozes únicas (tanto femininas como masculinas). Em qualquer canto se encontra alguém a cantar, a tocar ou até arriscava dizer, a sentir. Uma simples e única melodia é o necessário para qualquer turco desatar a desenhar o seu corpo numa dança que te deixa abismado e com sede de pertencer àquele sentimento momentâneo. Se para muitos o Brasil é o país dos alegres ritmos e das percussões, a Turquia é a terra de tudo isso, com uma ligeira diferença: Aqui toca-se, canta-se e dança-se com a alma e não com o corpo.
- Para o ontem, hoje e sempre.
Mais do que simplesmente voar por uns tempos fora do ninho, é saber que por instantes terás que deixar o deleite que é ter os teus por perto. Quanto mais longe, mais difícil será o reencontro e mais longínquas te parecem as memórias. Quase que se tornam memórias de uma memória que te assalta a mente. Para o caso falaria de memórias que começam a sentir-se na pele, ultrapassam a imagem, e o corpo ressente. São as manhãs, as tardes e as noites que tanto fazem falta e que partilhas com mais três sujeitos, fora ou dentro da arena. Sim, falo de três sujeitos: Gonçalo o paciente impaciente, Gil o Amado e o Lucas o fervoroso. Talvez não conseguisse contar quantos dias haja partilhado (digo partilhado e não passado) de volta deles a “musificar” ou apenas a estar. Remonta há já muito tempo e perdura. Muito para contar que certamente cada um de nós deverá andar a recordar mais por estes dias, pois quando este tipo de afecto carece, há que encontrá-lo recompensando-nos com as imagens que cada um detém. Como sou só um, ficará para outro dia todas estas artimanhas. Vão embora que o bacalhau está na mesa!
Até já,
Nuno Abreu
P.S: A quem queira ter uma visão do que é musicalmente a Turquia, aconselho a ver o documentário “Lost songs of Anatolia” de Nezih Unan.
Nuno Abreu | www.longwaytoalaska.com | www.facebook.com/longwaytoalaska
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